29 Aug 2015

Minha vida com o cão preto



Um dia eu fiquei paralisada diante da tela em branco, das linhas vazias; as palavras, sempre tão presentes, não mais me ocorriam. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo, ansiava pelo alento da escrita mais do que tudo, mas ele não vinha. E assim, pouco a pouco, todas as coisas que me eram familiares foram deixando de fazer parte do meu cotidiano. Desesperada por manter a vida que conhecia, eu bebia mais, e brincava mais, e ria mais a qualquer sinal de que beber com meus amigos tinha deixado algo no ar; quando voltar da festa com a cabeça leve às 3 da manhã parecia deixar algo faltando, eu voltava para casa junto com o sol, completamente enebriada por tudo e qualquer coisa; instintivamente aumentei todas emoções ao volume máximo até me esgotar e abraçar o vazio. Quantos livros não abandonei pela metade porque simplesmente não conseguia terminar um parágrafo sem precisar relê-lo umas 3 vezes? Minhas prateleiras ainda estão repletas de livros que finjo ter lido porque nunca me acostumei ao novo ritmo de leitura, à dificuldade de concentração, à dificuldade em encarar certos temas, algumas histórias, uma ou outra personagem que servissem demais de espelho para mim.

Eu tinha 22 anos, estava convivendo com a depressão há pelo menos 5 e achava que a vida não tinha mais nada para me dar. Só que eu não sabia de nada disso. Eu apenas sabia que não me encaixava, nem na família na qual nasci, nem entre os amigos que fiz pelo caminho e os poucos que consegui manter. Comecei a questionar o propósito da vida, mais especificamente da minha vida.

Estima-se que 10% da população brasileira sofre de depressão (dados da Organização Mundial de Saúde – OMS), a maior parte sem diagnóstico e consequentemente sem tratamento adequado. Mesmo quando a doença é diagnosticada as barreiras do estigma e de um sistema de saúde deficiente ainda são difíceis de ultrapassar. Certa vez ouvi de uma enfermeira ou auxiliar de enfermagem, mas uma profissional da saúde, que perguntara sobre meus remédios após uma cirurgia, que eu só precisava me abraçar a Jesus para me curar da depressão. Nem vou entrar no mérito de fé e religião, mas jamais esqueci essa abordagem tão equivocada para um assunto tão delicado. E aí falo até do remédio em si.

Sim, escolher tomar remédios é delicado. Muitos antidepressivos são caríssimos, os efeitos colaterais nos fazem questionar diariamente se vale a pena passar por tudo isso e por mais estudados que sejamos, por mais que nossos psiquiatras nos expliquem que a medicação é apenas parte do tratamento, muitos de nós passamos por aquela esperança boba de que vou tomar isso e vou ficar bem. Pronto. Nunca é isso e pronto, entretanto. O trabalho que nós, doentes, precisamos fazer é árduo. E como fazer trabalhar quem perdeu a vontade de viver? Andrew Solomon, autor do maravilhoso O Demônio do Meio-Dia: Uma Anatomia da Depressão, esclareceu perfeitamente que o oposto de depressão não é felicidade, mas vitalidade. É a força vital que nos faz continuar seguindo em frente que se esvai de nós quando estamos no meio de uma crise. Não é uma tristeza sem fim, é um nada sem fim. Talvez por isso a imagem da queda no abismo sem fundo seja tão comum entre as pessoas com depressão.

Sem vitalidade, como faz para levantar da cama pela manhã? Para escovar os dentes? Já passou dias sem tomar banho? Eu já. E foi um período assim que me levou de volta à terapia, pela primeira vez ao consultório psiquiátrico e que me fez encarar, aos 30, o diagnóstico que no fundo eu já conhecia muito bem. A expectativa era que depois disso eu estaria muito bem, obrigada. A realidade é que os últimos 4 anos foram os mais difíceis da minha vida. Eu já não mais questionava o propósito da minha vida, pois eu tinha certeza que não tinha nenhum, e desejava estar morta com frequência. Em momentos especialmente sombrios descobri a diferença entre querer estar morta parar querer morrer. Quatro vezes. E descobri que a gente encontra forças na ausência de vitalidade para tentar morrer. E a aprendi que a apatia que vem quando percebemos que o esforço foi em vão parece a própria definição de buraco negro. No entanto, a gente continua a viver. E um dia levantar da cama não é mais tão difícil. As palavras voltam a brotar. Não mais como alento; como parte do processo. E aí quando Stephen Hawking fala sobre a teoria de todo um outro universo do outro lado do buraco negro, algo faz sentido novamente. Porque é possível sobreviver, mesmo aos trancos e barrancos, mas eu nunca vou voltar a ser a pessoa de antes, a pessoa que nunca passou por isso, e nunca recaiu, e nunca desistiu, de si, da vida.



Precisamos falar sobre depressão. Precisamos falar sobre as comorbidades da depressão. Precisamos falar sobre o suicídio. De maneira pessoal. Porque todo mundo aplaude a declaração que Ricardo Boechat deu ao vivo na Rádio BandNews, mas todo mundo fala mal do colega de trabalho que faltou novamente porque simplesmente hoje não dava, mesmo que a OMS divulgue que "a depressão é a primeira causa de incapacitação entre todas as doenças médicas" (Márcia Soares, Abrata). Fiz uma cirurgia na coluna há dois anos a qual usei como desculpa para adiar os planos de ter filho, para me afastar do trabalho por dois meses no final do ano passado, pelos remédios que eu tomo e que me fazem ter dificuldade em acordar cedo (não tomo mais nada para a coluna). Em uma festa de família entreouvi minha mãe contando a minha irmã que eu tinha usado a coluna como desculpa numa conversa sobre filhos com minha tia e fiquei extremamente chateada. A conclusão da família foi totalmente equivocada, mas não muda o fato de que usei a coluna como desculpa mesmo! E é tão cansativo ter que inventar essas histórias. Por isso eu saio do armário e vou sair quantas vezes forem necessárias. Não vou bater no peito e dizer que tenho orgulho de ter uma doença mental. Mas eu sobrevivo a ela todos os dias e quero ter orgulho disso, quero encontrar a gratidão pela minha vida. Quero que os dias de recuperação superem os dias de contenda.

Referência: http://www.abrata.org.br/new/artigo/impactoDepressao.aspx
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4 comments:

Renata said...

Minha flor, eu sempre fico sem saber o que dizer diante da sua coragem de se expor (algo que eu também concordo que é necessária, mas que exige muita força de quem assume o tranco). Eu só queria me fazer presente. Dizer que te admiro, que torço demais por você e que estou aqui pro que você precisar. Amo você.

:*

Clarice M. said...

Flor, "só" se fazer presente já é tanta coisa. Ter alguém como você a meu lado ajuda tanto. Um dia eu escrevo sobre a solidão da depressão. Deixa eu me recuperar, porque eita tópico difícil de escrever :)

Clarice M. said...

Flor, "só" se fazer presente já é tanta coisa. Ter alguém como você a meu lado ajuda tanto. Um dia eu escrevo sobre a solidão da depressão. Deixa eu me recuperar, porque eita tópico difícil de escrever :)

D. said...

E não basta a doença em si. Não bastam os efeitos, os questionamentos, tem que ter o estigma amarrado a ela. Que engorda a bola de neve que ela compõe.
Não vim dizer "se anima", ou "vai tudo ficar bem", pra mim pelo menos é tão doloroso ouvir esse tipo de coisa. Mas vim dizer "vamos tocar adiante, vamos tocando". Porque é isso, é conseguir tocar, encontrar de volta a vitalidade (que daí, no meu caso, explode em forma de mania e depois desaparece).
Reforço o que a Renata disse: você foi (é) incrível, corajosa por continuar lutando e por contar sua história assim, de peito aberto.

Um quaquilhão de beijos :*