7 Sep 2015

Não existe machismo no meio cervejeiro artesanal.

"Somos feministas. Acreditamos que mulheres e homens devem ter direitos iguais. Ultimamente, temos conversado muito sobre o machismo na publicidade de cerveja e queremos que essa conversa continue na mesa de bar no happy hour e no almoço de domingo. Por isso criamos uma cerveja que é um "puxador de assunto". Coloca uma cerveja feminista na mesa, faz um brinde à igualdade e entra nesse papo com a gente."
E assim nasceu esse projeto lindo e tão importante que eu tive o prazer de poder acompanhar se desenvolver nas redes sociais. A Cerveja Feminista foi criada como uma resposta imediata às propagandas da Skol durante o carnaval, que incentivava a cultura do estupro por retratar mulheres sem vontade própria à mercê dos homens. Obviamente isso não é novidade nas campanhas das grandes cervejarias e por isso mesmo o projeto da Cerveja Feminista não se limita a uma resposta à Skol, mas estende-se à necessidade de questionar o papel da mulher nas propagandas. Como consumidora de cerveja, sinto-me extremamente incomodada com a publicidade que chega até mim, levo ao debate sempre que possível, deixo de consumir alguns rótulos – no caso da Devassa, deixo de frequentar alguns lugares – e sequer experimentos outros. Não é simples. Já recusei encontros e uma cervejinha gelada numa festa que não me dava opções. Mas são essas pequenas escolhas que acho necessárias trazer para minha vida.

Quando eu e o moço começamos a nos interessar por cervejas artesanais, posteriormente ele produzindo cervejas caseiras e conhecendo outros cervejeiros caseiros da região, acreditei que saindo do "mainstream" encontraria cervejas melhores e menos preconceito. Ledo engano. Não me levem a mal, encontrei cervejas infinitamente melhores e sou bem mais feliz agora nesse sentido. O preconceito, entretanto, nunca esteve tão perto. Por um lado as cervejarias possuem uma variedade de rótulos e nomes para ter várias chances de usar a imagem da mulher-objeto, muitas vezes com a desculpa esfarrapada de que se trata de uma homenagem. Por outro lado os cervejeiros, sejam eles produtores de panela ou apenas apreciadores, não poupam os comentários pejorativos sobre as mulheres que tentam participar do meio, que vão desde os mais aparentemente inocentes "mas que estranho uma mulher que gosta tanto de stout/IPA" até os abertamente ultrajante "fulana só está atrás de homem/macho."

Se for selecionar os rótulos de IPA dá vontade de chorar...

Neste final de semana aconteceu o Bierfest Brasília, com a participação da Acerva Candanga (Associação dos Cervejeiros Artesanais do Distrito Federal). Em uma entrevista para a Revista da Cerveja, um membro da Acerva comentou sobre o número reduzido de mulheres na associação. Não é a primeira vez que esse comentário é feito e eu já ouvi falar que isso se repete pelas acervas em todo Brasil. A informação sempre vem acompanhada de um "é assim mesmo", "quem sabe no futuro muda", ou qualquer observação que não pretende indagar a si mesmo. Agora eu me pergunto, como as mulheres têm sido recebidas no meio cervejeiro? Por que, curiosamente, as mulheres que não recebem comentários depreciativos são mulheres casadas cujos maridos também são cervejeiros? Numa thread sobre o machismo no meio cervejeiro no fórum da Brejas, apareceram apenas duas mulheres para participar, em 20 páginas de discussão, e mesmo assim apenas depois da quarta página. A primeira teve seu comentário desqualificado várias vezes e anda bem voltou para rebater, porque deu um show; a segunda foi poupada, porque é feminista mas tá de boas. Sabe como é?

Eu não quero estar de boas, não quero ser recebida de braços abertos se para isso for necessário repetir velhos conceitos, calar-me diante do abuso da minha imagem, ignorar a condescendência com que ouvem meus comentários. Eu leio os mesmo livros, vejo os mesmos programas, bebo as mesmas cervejas; eu sou minha própria pessoa, sou consumidora, desenvolvo opinião. Não sou musa, inspiração, homenagem. Não bebo nem nunca bebi cerveja por causa de homem. E quem tem que discutir machismo em meio cervejeiro sou eu, que sou mulher, não vários homens em posição claramente privilegiada que nunca irão achar que nada foi ofensivo, porque afinal de contas nada os ofendeu e empatia, meus amigos, é peça de museu.
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