18 Sep 2015

Setembro Amarelo

A cada 45 minutos uma pessoa comete suicídio no Brasil; no mundo, a cada 45 segundos. Existe uma lenda de que noticiar suicídios estimularia que mais pessoas fizessem tentativas, mas de fato evitar o debate apenas piora a situação pois marginaliza quem poderia procurar ajuda. Diante disso, o mês de setembro foi escolhido como o mês de prevenção do suicídio e por ser esse assunto tabu, o moto da campanha é chamar todos a falarem sobre o suicídio.


A verdade, entretanto, é que poucas pessoas conversaram sobre o suicídio. Sim, as pessoas compartilharam artigos e estatísticas, usaram hashtag e até se mostraram solidárias com o tema. Ainda assim, não houve conversa. E eu entendo. Oras, há uma semana estou cozinhando este texto. Primeiro disse a mim mesma que não precisava escrever no dia em que me “permitiram” falar do assunto (10 de setembro, escolhido como Dia Mundial da Conscientização e Prevenção do Suicídio); depois assumi que, venhamos e convenhamos, era ilusão conseguir manter a meta de um texto por semana em meio a uma crise; na realidade eu estava (estou) apavorada. É fácil dizer que precisamos falar sobre o suicídio, mas é extremamente delicado abordar o assunto. Se o estigma da depressão é enorme, o estigma do suicídio é monumental. E é justamente por isso que precisamos falar também sobre o suicídio. Por trás das estatísticas que assombraram muita gente, existem pessoas, pessoas que estão mais próximas do que podemos imaginar. Eu sou uma estatística.

Uma das coisas mais difíceis da tentativa de suicídio é que ela não dá certo. Porque o desejo de morrer é real. Frustração foi sempre meu primeiro sentimento, logo seguido da mãe de todas as ressacas morais. A apreciação pela vida que ficou não vem logo, não é à toa que precisei ficar em suicide watch algumas vezes – em outras a gente consegue fazer de conta que está tudo bem, mas ela vem, a apreciação. Nas pequenas coisas. Eu espero que ela venha amanhã, no sorriso de uma menina que tem se encantado pelos mesmos filmes que eu amo, que quando mal sabia falar já amava os livros. Criar expectativas é como criar armadilhas, podem me dizer. No entanto, é só essa expectativa que vai me fazer entrar em um avião em cerca de 12 horas.

Outra das coisas mais difíceis da tentativa de suicídio é que as pessoas querem saber por que. Não qualquer pessoa. A psiquiatra. A terapeuta de casal. O marido. A psicóloga nova. E aparentemente ninguém fica satisfeito com a resposta “eu queria morrer”. Precisa haver um motivo. Eu passei os últimos 15 anos da minha vida tendo mais “pensamentos de morte” (como minha antiga psiquiatra se referia ao desejo de não estar viva, mas não necessariamente de me matar) do que “pensamentos de vida”. Ainda assim, um motivo. Não basta o desespero mais profundo. Não basta a apatia mais dilacerante. Então eu penso no meu contexto de vida, pego a gota d’água, quando há, e faço minha apresentação. É vazio, porque não explica. Nada explica. Artistas extremamente talentosos passaram a vida colocando a depressão e o anseio pela morte em metáforas e ainda assim cada experiência é única e todas são alheias para quem não as experimentou. Justamente por isso, se precisamos falar sobre suicídio, vocês precisam ouvir sobre suicídio.


Eu acredito muito que falar é a melhor solução. O tempo de parar para dizer alguma coisa é o tempo que seria usado para fazer alguma coisa. Entretanto, só vale se for para ser ouvida. Temos iniciativas ótimas como o Centro de Valorização da Vida (CVV), mas de vez em quando o que a gente quer é um ombro amigo mesmo, alguém que dê conta de ouvir “vem ficar comigo senão é capaz de eu fazer uma bobagem” e não me julgue a pessoa mais fraca e egoísta da face da terra. Que o Setembro Amarelo estimule a prevenção e a conscientização do suicídio, mas que a conversa não pare por aqui. Eu não estou sozinha. Mas se eu não estou sozinha, você também não está.

Referência: http://www.portalsaudenoar.com.br/setembro-amarelo-mes-de-prevencao-ao-suicidio/
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