12 Oct 2015

6 anos na Capital Federal

É sempre fácil lembrar o dia em que cheguei em Brasília de mala, cuia e uma mala cheia de sapatos porque foi uma dia antes do feriado de 12 de outubro. Meus padrinhos vieram forrar nossa cama, porque disseram que traria sorte ao casamento ter a cama forrada por um casal de longa data e eu estava imersa nessa onda de tradições. Então naqueles 25m2 da kitnet que o moço morava começava essa jornada que foi dar numa vida bem diferente da qual eu imaginava.


Dizem que se ama ou se odeia Brasília e nos meus primeiros anos aqui eu podia jurar que eu odiava a cidade. No fim das contas o que eu odiava mesmo era a falta de mobilidade de não saber andar direito por aqui, do transporte público ser uma porcaria, de ter que dividir o carro com alguém pela primeira vez; eu odiava o preconceito regional, especialmente aquele velado, que encontrei nos lugares mais inusitados, como na graduação de Letras; eu odiava a solidão, a vida longe da vida que eu conhecia, reconectar-me com alguém que eu tinha me relacionado apenas à distância (em 4 anos, quanto tempo tínhamos passado realmente juntos?). Foi tudo muito difícil. A adaptação veio aos poucos, no entanto. Quando dizem que Brasília é apenas capaz de despertar sentimentos tão extremos, eu dou risada. Porque, sinceramente, nem a amo, nem a odeio, mas uma coisa é certa, sinto-me muito agradecida à maquete.

A surpresa de ter encontrado (ou não) certas coisas aqui que eu definitivamente não esperava contribuíram numa mudança que era inevitável, afinal, eu casara e não só saíra da casa dos meus pais, como mudara para um outro estado a milhares de quilômetros de distância. Porém em outro lugar talvez eu não tivesse desenvolvido uma consciência social mais apurada. Tudo começou quando eu fiquei pasma por sofrer preconceito por ser nordestina na capital que é um balaio de todas as regiões do país. E todo o resto foi mudando. Mais atenção às questões de cor, gênero, orientação sexual, religião. Descobri-me não-católica. Assumi-me ateia. Eu não me identificava como feminista antes, mas ainda lembro da aula de Ética, no meu 2o ou 3o semestre, quando o professor comparou a mutilação do clitóris em algumas regiões da África com a circuncisão judaica. Depois de uma semana puxada, incluindo um professor de literatura misógino, aquela fora a gota d'água e eu assumi: é isso, sou feminista e vou passar o resto da aula discutindo com esse cara. Foi libertador. Porém Brasília também me fez encarar minha solidão intrínseca e minha doença. Foi assustador. Procurar ajuda tem sido um aprendizado.

Se eu já era, digamos, assertiva antes, talvez um pouco a idade, talvez um pouco a aridez do cerrado tenham aprimorado isso. Mas também aprendi a tratar com mais doçura os meus. Tenho me machucado mais e me decepcionado mais, porém a promessa é que assim que eu aprender a ser mais autossuficiente eu vou aproveitar mais também. Quando paro para pensar, eu gosto de quem me tornei (ou estou sempre me tornando?). Pudesse pedir algo, pediria uma segunda pele, super reforçada, dessas de guerreiro que aguenta sol, chuva, vento forte, neve, ataques físicos e nem tanto, sabe? Pois então, parece que é o que falta. Para Brasília eu pediria metrô para todo canto, Já pensou, ir de metrô para a universidade? Metrô para o Sudoeste? Para Sobradinho? Que sonho! Talvez assim a gente pudesse se amar, Brasília.
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