2 Dec 2015

42

Um post compartilhado no Facebook recentemente sobre uma prova de física na qual os alunos tinham que elaborar perguntas inspirados no tema da relatividade me fez refletir um bocado sobre meus últimos meses (oi, sumiço), sobre pessoas terapeutizadas e sobre uma incapacidade geral de levantar questões, não somente perguntar.

Nesses últimos meses eu tenho olhado muito para dentro e tem sido bastante incômodo. Posso ouvir o meu próprio eu racional me parabenizando por encarar uma terapia de efeito, finalmente. Talvez porque eu finalmente estivesse pronta, talvez porque eu finalmente encontrei um terapeuta com quem tenho conseguido criar algum vínculo. O fato é que, ao contrário do que imaginava, há quatro anos, quando iniciei um processo terapêutico pela terceira e mais tumultuada vez, eu não vou encontrar respostas naqueles meus 50 minutos semanais. Os questionamentos, por sua vez, pululam o tempo inteiro. E apesar do incômodo, o caos tem sido enriquecedor. Ou seria justamente pelo incômodo?

É ainda muito cedo para mudanças mais profundas, óbvio. Às vezes me sinto dando um passo para frente e três grandes pulos para trás. Quase sempre quero pedir para parar, chega, tá bom, traz de volta o falso conforto da vida que eu tinha. Mas é impossível retornar. Já era impossível seguir com aquela vida antes, porque no fundo eu sabia que havia algo (muitos algos) a ser remexido. E aos poucos as mudanças vêm; no discurso, na percepção. E foi quando eu comecei a reparar como é diferente a fala e a interação de quem passou por esse processo de olhar para dentro, de remexer por dentro, de refletir o ser.

Eu tenho certeza, no entanto, que a capacidade questionadora não pertence tão somente àqueles que tiveram o privilégio de passarem por um processo terapêutico de sucesso. Pelo contrário, acredito ser inata a nós e nos forçam a perdê-la. Em casa? Na escola? Em que momento exatamente isso acontece? O que podemos fazer para reverter esse quadro? Individualmente e como sociedade organizada. Por enquanto eu só tenho perguntas. Mas é por aqui que a gente começa.

Uma das coisas que mais me encanta na série d'O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, é a busca pela pergunta definitiva. O simples ato de questionar é o que nos move, porque ele vem acompanhando de uma série de elocubrações, ainda que muitas vezes jamais nos leve a resposta alguma. Até porque a resposta pode ser tão ridícula quanto "42".
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