28 Apr 2016

Intensidade, diversão e flerte

Quando ainda estava na escola, lembro da moda de escrever mensagens nas capas dos cadernos das amigas. Mensagens dizendo "te adoro!" (porque dizer que ama era muito sério), letras de músicas ruins, frases inspiradoras. Uma das frases mais repetidas dizia que a gente tinha que viver a vida intensamente e até hoje eu lembro do que sentia ao ler essa frase, porque até hoje sinto a mesma coisa. Não, por favor, não. Quero calmaria, quero paz, quero tédio. O problema é que eu não sei como isso funciona, eu não sei como não me entregar.

Já me disseram que pareço arrogante, séria, reservada. Já me explicaram que as pessoas até têm medinho de se aproximar. Eu digo que sei de tudo isso, porque no fundo eu tenho medo que as pessoas se aproximem demais e me vejam. Vejam que não tenho limites, que eu me envolvo demais. Minha preocupação nem é que tirem proveito de mim, veja bem, eu sou intensa mas não sou idiota, mas que eu não seja entendida.

(Sim, esse é um tema recorrente na análise, não precisa recomendar.)

***

Como tenho poucos amigos aqui na capital do meu país, resolvi ingressar no maravilhoso mundo dos aplicativos de relacionamento, representados pelo conhecido Tinder, quando me senti pronta para voltar a paquerar. Ou quando achei que estava pronta para voltar a paquerar. Porque o primeiro match da minha vida resultou no celular jogado no chão e eu pensando "vixe, o que faço agora?!" Eu conto: desliguei o o celular e liguei novamente para não ter que ver o app aberto, desinstalei e segui a vida. Eu precisava da leveza, aquela, antes de tentar novamente.

Desde então eu tive dois encontros bacanas, um encontro bizarro que não deveria ter acontecido e outro que ainda não sei direito o que foi (e também não quero parar para analisar). É pouco, até, visto que o segundo encontro foi praticamente inexistente, mas já o bastante para dar um nó na minha cabeça. Do serial dater que espera fogos de artifício no primeiro beijo (ou um discreto "clique") ao cara que diz não saber ter um relacionamento casual para dois dias depois resolver que não está pronto para um relacionamento sério (sem o assunto "seriedade" ter entrado em pauta), concluí que homens são as criaturas mais complicadas da face da terra. Ou melhor, do universo, só para ter certeza que ficou bem claro.

Mas é ÓBVIO que conversei com minhas amigas sobre o que estava acontecendo e todas as duas, sem se conhecerem, disseram a mesma coisa: vai se acostumando. E tenha paciência. Isso porque só estou querendo companhia para ir ao cinema e conhecer o restaurante peruano que abriu perto de casa, imagina quem está mesmo à procura de uma alma gêmea? Spoiler: isso não existe.

(Também não tenho coração peludo, não de verdade, então é provável que se chegar ao terceiro encontro é porque há algum nível de envolvimento. Lembram que eu sou meio intensa? Isso não quer dizer que estou pedindo em casamento, quero a benção dos pais e já escolhi nomes para os filhos. Não quer nem dizer que vou apresentar a meus amigos, e relacionamento sério para mim começa por aí.)

Se na minha breve experiência, e na larga das minhas amigas, o negócio parece uma cilada, por que continuar? Ainda é divertido. Divertido, principalmente, ver os perfis, encontrar padrões nas fotos (1. Está querendo mostrar que tem um carro? 2. A barriga tanquinho que vai conversar comigo? 3. Os óculos escuros são por motivo de sou vesgo?) e ler os que se dão o trabalho de escrever uma descrição. Já havia percebido que muitos moços dão like mas não conversam depois do match. Aparentemente a prática é comum entre as moças também, o que deixa muitos homens chateadíssimos. Outros não querem nem ouvir falar de fumantes, ou piriguetes, ou petralhas, mulher que curte qualquer coisa que eles acham absurdo. Então aparecem os avisos, quase ameaças, melhor apertar no X (e eu quase ouço o "tchau, querida" no final). Muitos garantem ser simples, tranquilos, mas duvidemos de todos, afinal de contas, homens são complicados (MESMO!). A quantidade de homens casados não me surpreende realmente, mas toda vez que vejo um perfil de casal dou uma risadinha com toda minha maturidade adolescente.

***

Eu achava que precisaria reaprender a paquerar, mas olha, eu sempre me considerei boa no flerte e parece que flertar é como andar de bicicleta, mesmo que se passem 10 anos, a gente continua sabendo. Tudo bem que faz bem uns 20 anos que não ando de bicicleta, mas vou acreditar piamente nisso. Claro que eu não tenho certeza se domino a arte do flerte, mas sei que ela é baseada na diversão e eu me divirto muito flertando -- ou tentando flertar!

Acontece que a última vez que tinha feito isso virtualmente foi nos áureos tempos dos blogs, antes das redes sociais com suas opções de curtir e compartilhar. Eu já tinha percebido minhas amigas (aquelas duas) comentando sobre como andavam trocando likes com o moço da vez mas nunca entendi realmente o que significava. Até que percebi que só comecei a dar like nas coisas que o boy posta depois de ter levado um pé na bunda com aquela historinha de vamos ser amigos. Pedi socorro. "Estou fazendo errado, né?" "Está".

Minha vida de solteira na internet se divide em "migo, eu sou legal, não estou te paquerando" e "migo, eu não sou legal, estou te paquerando". Então eu quero defender que eu sei flertar, sim, mas ainda preciso me atualizar com o que essa garotada anda fazendo online por esses dias. Enquanto isso, sabe que abriu um restaurante peruano aqui perto de casa?
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9 comments:

cristiana said...

Eu te entendo taaaaaaanto!!!!
Besides that, tenho outro aplicativo pra indicar. Também me divirto horrores. Precisamos trocar figurinhas. 😜 😘

Clarice M. said...

Hahahaha viu, todas concordam. O outro app é o Happn? Pq um dos moços na verdade conheci nele 😉

Anonymous said...

Hahahahahha, muito bom. Fiquei com vontade de ter um Tinder. Opa. Parece que agora não posso! eehhehehehehe! :)

Não sabia que você ainda escrevia. Deu saudade de você e, de certa forma, de mim também.

:****
Naty Duprat

Clarice M. said...

Super entendo essa saudade de si, sempre sentia lendo outros blogs. Não parei de escrever, mas quase. Espero estar voltando de verdade. Prometo contar mais aventuras de Tinder e Happn hahahaha

Anonymous said...

Hoje ouvi no rádio que o Tinder está testando uma função que reúne grupos. Seria uma espécie de surubão? Opaaaaaa! ehehehehheheeheh

Nat

Clarice M. said...

Imagina, vai ser pura sacanagem Hahaha

Clarice M. said...
This comment has been removed by the author.
Vanessa Campos said...

Ri muito, Cla, mesmo, porque me identifiquei com muita coisa (sobretudo a analisar os padrões de fotos, parece que todo mundo foi ao Peru, menos eu, e por que raios tanta foto de óculos escuros, minha gente?) e porque flertar sempre foi o meu esporte favorito. Falemos mais a respeito e bora jantar lá em casa semana que vem porque já passou da hora. Não sei fazer comida peruana, mas meus risotos são espetáculos :)

Clarice M. said...

Sim, já passou da hora desse jantar! E precisamos mesmo trocar figurinhas. Preciso de mais experiências.