12 May 2016

Dilma Rousseff, impeachment e machismo


Daniel Marenco / Agência O Globo

Eu sempre tive inúmeras críticas ao governo Dilma Rousseff, sendo uma das principais a forma como ela vinha lidando com movimentos sociais e questões de direitos e igualdades. As alianças feitas pelo Partido dos Trabalhadores tornou impossível que eles se mantivessem minimamente alinhados a seus ideais. A decepção foi tão grande que não consegui votar em Dilma no primeiro turno das eleições (apesar de ter militado bastante para o segundo turno). Seu segundo governo começou ainda pior do que o primeiro terminara, a decepção se aprofundou, as críticas tornaram-se mais contundentes e eu estava pronta para ir às ruas. E gostaria muito de ter ido, para cobrar as promessas feitas em ano eleitoral, para exigir que meus direitos (e de outras minorias) não fossem trocados pelos caprichos da bancada BBB no Congresso Nacional. Mas as pessoas foram às ruas vestindo camisas da CBF para pedir o fim da corrupção. Aí não dá, né? Porque eu podia ter inúmeras críticas ao governo, mas não queria compactuar com aquilo.

Quando começaram os protestos contra o governo, os gritos que eu ouvia do meu apartamento nada tinham a ver com a incompetência de Dilma como presidenta. Quando o processo de impeachment tornou-se cada vez mais real, lembrei-me de nossos dois presidentes anteriores: dos pedidos de impeachment vazios quando PT era o partido de oposição; da popularidade inigualável do primeiro presidente que o partido colocou no poder que impediria qualquer tentativa de tirá-lo de lá. Quando a capa de uma revista publicou uma foto da presidenta chamando-a de descontrolada, pensei nas vezes em que fui apontada como mandona, intolerante, intragável por ser assertiva e ter uma postura forte.

A causa do impedimento da presidenta Dilma não é o machismo, mas ele é um elemento fundamental em todo o procedimento, simplesmente porque o machismo está presente em nossa sociedade e nós mulheres lidamos com isso diariamente. Os xingamentos que acompanham os comentários da maior parte dos descontentes com o governo deixavam isso claro. As diversas maneiras esdrúxulas que a mídia usou para diminuir a imagem de Dilma deixavam isso claro. O quadro ministerial sem nenhuma representante feminina (ou de outras minorias e movimentos sociais) deixa isso claro. Incompetência não tem gênero, competência também não. Porém, do mesmo jeito que somos preteridas para cargos e funções pelo fato de ser mulher, nossos erros são apontados e explicados pelo motivo de ser mulher.

No fim das contas, não gostaria de ter vivido essa parte da história do Brasil, porque foi um momento muito triste. Mas tenho orgulho do lado que escolhi para lutar. A presidenta Dilma Rousseff se mostrou uma pessoa forte e admirável.
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