31 May 2016

Não estou dando conta, mas vou continuar lutando


Foto maravilhosa de Flora Negri na Marcha das Vadias em Recife, 29/05/2016.

Desde que li a notícia sobre a menina no Rio de Janeiro que foi estuprada por 33 homens tenho me sentido cada vez mais sufocada. A princípio pelo crime em si, de uma violência inimaginável para mim. Em seguida pela maneira que a denúncia foi conduzida, a vítima tornando-se culpada mais uma vez. Depois pelas outras denúncias que começaram a aparecer, histórias que personalizam a devastadora estatística de 1 mulher violentada a cada 11 minutos (números que podem ser piores, pois muitos casos não são reportados). Por fim, pelo silêncio quase unânime dos homens com quem eu tenho contato de alguma forma. Talvez alguns deles tenham evitado se posicionar contra a barbárie e a cultura do estupro por causa das prováveis críticas, e talvez eu mesma tivesse criticado outros que se posicionassem sabendo que não levam o discurso para a vida pessoal. Mas tão poucos falaram sobre isso que pude agradecê-los individualmente, com a certeza de que não estavam apenas pedindo confete.

Por que é tão importante que os homens se posicionem e tomem parte na luta? Porque a cultura do estupro jamais terá fim enquanto eles não refletirem sobre seus pequenos (e nem tão pequenos) atos que a alimentam. Ao invés de visualizar um contexto maior, a maioria parte para a defensiva, afinal, nem todos os homens são estupradores. Entretanto, como bem escreveu minha irmã em sua página no Facebook, "a generalização não é que todos os homens são estupradores. [...] O medo que é generalizado." Nós, mulheres, vivemos com medo. Precisamos tomar diversas medidas para nos proteger, uma proteção ingênua, pois evitar que eu seja atacada é também saber que outra mulher será no meu lugar. Isso porque estupro não é sobre desejo, é sobre violência. E a culpa nunca é da vítima.

Então eu deixo aqui o apelo da minha irmã às pessoas do sexo masculino, porque é também meu apelo. E porque ler as situações que minha irmã mais nova passou foram a gota d'água que quase me impediu de levantar da cama no último domingo. Diz-se que toda mulher tem uma história de horror para contar. Muitas de nós não chegamos a ter nossos corpos violentados; outras sobrevivem. Todas temos nossa liberdade violada.

Queridas pessoas do sexo masculino,

Entendo que vocês se chateiem com as "acusações" de que vocês são todos estupradores. Mas, por favor, me deixa tentar explicar uma coisa.

Vocês sabem o que é ter medo de ter o corpo violado ao pegar um táxi ou a receber uma entrega de comida quando estão sozinhos em casa? Eu sei. Vocês sabem o que é sofrer assédio no seu ambiente de trabalho/estudo? Eu sei. Vocês sabem o que é reclamar de um motorista que vinha na contramão e vocês quase bateram e ele ficar dando murro no seu vidro te chamando de vagabunda, rapariga, puta e dizendo que vai te meter todinha? Eu sei. Eu poderia listar várias outras situações que já passei nos meus 30 anos de vida. Felizmente, a maioria de vocês não sabe o que é isso.

Vejam, a generalização não é que todos os homens são estupradores. Eu sei que vocês não são. O medo que é generalizado. Entendam que se um de vocês estiver andando em uma rua escura e uma mulher estiver vindo, pelo menos por alguns segundos, ela vai ter medo de você. Você pode ser a pessoa mais correta e respeitadora do mundo, mas, naquele momento, uma mulher tem medo de você. Conseguem entender a diferença? E não é paranoia. Esse senhor que ficou batendo no meu vidro provavelmente é uma pessoa normal, até seu colega de trabalho. O profissional que me assediou é um pai de família. É uma coisa que está no nosso cotidiano. Não são psicopatas, doentes. São homens normais.

Acreditem, nós queremos acabar com isso tanto quanto vocês. Do mesmo jeito que vocês acham absurda a generalização de uma mulher ter medo de vocês na rua, nós queremos andar na rua sem ter medo de vocês. Pra isso, vocês podem começar nos respeitando, parando de falar que é frescura. Em vez de ficar falando "mas eu não sou estuprador", pensem nas suas atitudes diárias que contribuem pra esse medo generalizado.

Vocês nunca saberão o medo que eu tenho COTIDIANAMENTE de ser estuprada. Não é frescura, não é mimimi. Então façam simplesmente uma coisa: pratiquem empatia. Conversem com as mulheres próximas a vocês. Escutem o que elas têm a dizer, como elas se sentem.

Me ajudem a não ter medo de ser a próxima.

Com amor,
Natália
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6 comments:

cristiana said...

Cla, o texto da tua irmã foi uma luz pra argumentar com um macho reativo muito querido meu. 😘

Clarice M. said...

Que massa, Cris!
Eu gostei muito como ela colocou as coisas. Às vezes é tão óbvio pra gente que até cansa, mas tudo ainda tem que ser feito com amor.

Marissa Rangel-Biddle said...

Meu amor por esse post <3

Clarice M. said...

Marissa <3

Anonymous said...

Texto incrível.
Lembro de Natália pequena e fico feliz de ver a mulher que ela se tornou.

:)

Naty

Clarice M. said...

Eu também, Naty, eu também =) <3