31 Jul 2016

Quando fui magra

No fim de 2011 comecei um processo de emagrecimento e reeducação alimentar que me levaram à fase mais magra da minha vida e, curiosamente, apontada pela pessoa que estava a meu lado como a mais feliz desde que vim para Brasília. O que ninguém sabia é que eu havia trocado um transtorno alimentar por outros: a compulsão alimentar pelo combo anorexia/bulimia, com direito a distorção da imagem corporal e horas pesquisando por thinspiration. Quando fui magra eu estava bem doente e talvez o mais difícil em identificar isso era o fato de já estar na faixa dos 30 anos e ter um lindo discurso sobre minhas mudanças de vida em nome da saúde. Hoje é impossível para mim não ver o problema escondido por trás da celebrada magreza, não só porque voltei a engordar na grande crise de depressão, mas também por reconhecer todas as atitudes destrutivas que tomei em busca de um corpo magro que deveria me garantir felicidade e realizações e que obviamente não cumpriu seu papel.


Xilofone é como são chamados os ossos aparentes da caixa torácica. Eu era muito orgulhosa do meu xilofone. Foto: retirada de um fórum pró anorexia que obviamente não será linkado.

É um buraco sem fundo que o mundo cria na cabeça de quem não é magra e a grande crueldade é perceber o quanto essa movimentação contribui para subjugar a mulher. Quando fui magra, notei o quanto manter o "corpo perfeito" requer muita dedicação -- física, mental, emocional. Enquanto estou ocupada com isso, deixo passar as pequenas opressões diárias, e todos ficamos felizes, não é mesmo? Mas ninguém consegue manter essa ilusão por muito tempo. Não por acaso, as gordas felizes e autoconfiantes são tão odiadas. Como ousam estarem satisfeitas sem se submeter diariamente a uma dieta restritiva e horas de exercícios torturantes? Como ousam sorrir, amar e vestir-se da maneira que querem se para conseguir isso estrou travando uma verdadeira guerra não contra a balança, mas contra meu próprio corpo?


"Beleza em qualquer formato e tamanho." Não sei de quem é a ilustração.

Há alguns anos a cagação de regra mudou de "o corpo tem que ser magro para ser bonito" para "o corpo tem que ser magro para ser saudável". Mas não se enganem, essa é só uma maneira de revestir discurso de ódio com algo socialmente aceitável a fim de continuar a patrulha sobre nossos corpos. Acontece que gorda não é sinônimo de doente, assim como magra nunca foi sinônimo de saudável. E se começarmos a falar de saúde mental, então, a questão é muito mais complexa. Por isso aplaudo os movimentos de aceitação do próprio corpo. Eles são mais voltados para gordas mas eu acredito que toda mulher pode se beneficiar com as mudanças de paradigma. Elogiar o corpo gordo não é o mesmo que rejeitar o magro; inspirar-se pela blogueira plus size não é chamar de traidora do movimento a gorda que resolveu emagrecer. Aliás, amiga gorda que resolveu emagrecer: você não precisa se justificar! Encontro-me neste ponto de superação, inclusive, porque fazer as pazes com meu corpo tem sido maravilhoso -- livrei-me do peso de guardar todas aquelas roupas de quando fui magra, libertei-me das dietas restritivas e tenho uma vida sexual muito mais prazerosa -- porém, fico o tempo inteiro me lembrando do problema de saúde que requer que eu emagreça, esclarecendo a mim mesma repetidamente que este é o motivo e que não significa que não aceitei meu corpo de verdade.

Buraco sem fundo, lembra? A pessoa aprimora ser a louca da problematização.

Quando fui magra, eu achei que não precisaria lidar novamente com a pressão social sobre meu corpo, mas em pouco tempo descobri que a patrulha sobre o corpo feminino não tem fim. E é aí que eu, apesar de continuar aplaudindo os movimentos de positividade corporal, questiono se o foco não deveria ser em lutar contra a cobrança da sociedade sobre o corpo da mulher. Porque se o primeiro é fundamental para mudanças individuais, só através do segundo conseguiremos mudanças em um comportamento global sistematicamente doentio.
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2 comments:

marina w said...

muito bom :)

Clarice Concê said...

<3