1 Aug 2016

50 tons de trocadilho (um post sério)

Originalmente publicado em 25 de fevereiro de 2015.

Um Tom de Cinza: Uma Fantasia Feminista
"Não", ela disse.
E ele respeitou seu desejo e não a importunou mais.
Fim

Eu ia começar o texto dizendo que 50 Tons de Cinza, de E. L. James é o típico exemplar do "não li e não gostei". Até que me lembrei de que eu tentei ler esse livro. Logo quando saiu a tradução brasileira o aplicativo para celular da Livraria Saraiva trazia o primeiro capítulo de amostra. Eu já tinha lido alguma polêmica em blogs americanos sobre a história, mas era sexo, BSDM, numa embalagem bonita e de graça, parecia interessante e não custava experimentar. A não ser que custou sim, preciosos minutos da minha vida que jamais recuperarei. O texto é tão mal escrito, mas tão mal escrito que eu sequer consegui terminar o primeiro capítulo que me veio de presente – e olha que eu sou a maior leitora séria de bagaceira que eu conheço!

Esqueci-me maravilhosamente da existência desse exemplar até o burburinho da produção do filme. Tentei ficar alheia a todos os comentários até a estreia nos cinemas. Então não resisti mais e fui procurar conhecer melhor o problema. Claro que não fiz isso efetivamente lendo os livros (nem acreditei que aquele troço tinha virado uma trilogia!), que eu não sou besta nem nada. Preferi ler inúmeras resenhas que pulularam na internet com o sucesso cinematográfico (que começou antes mesmo de o filme entrar em cartaz) até chegar a textos mais antigos e completos sobre os livros. Confesso que quanto mais eu lia, mais assustada eu ficava. Assustada com o sucesso da "história de amor" (muitas, muitas aspas); assustada com os suspiros descarados pelo tal Mr. Grey, o mocinho claramente perturbado e controlador; assustada com a possibilidade de que há meninas desejando uma história como aquela para elas. Para completar, todas as críticas são refutadas com o argumento de que nós somos umas carolas que não damos conta de umas cenas picantes de sexo, então eu fico ainda mais assustada por não entenderem que não é sobre sexo. A relação de Christian Grey e Anastasia Steele não é sobre sexo; as críticas ao livro e ao filme não são sobre sexo. E para quem precisa que seja dito claramente: é sobre violência.

Não, eu nunca fui Anastasia. Estava inclusive guardando minhas palavras e apenas compartilhando no Facebook textos de pessoas que souberam criticar e argumentar muito melhor do que eu poderia sonhar em fazer (Recomendo: The Rambling Curl, Trout Nation e Marjorie Rodrigues). O que me fez então querer dar minha humilde participação nesta polêmica? Uma resenha sobre o filme que inicia seu argumento de defesa dizendo que filme não precisa ser exemplo de nada. Eu quis sentar no canto e chorar.

Por um lado, essa afirmação tende a diminuir a força revolucionária que a arte possui – ela historicamente contestou e contesta diversos padrões estabelecidos na sociedade. Basta lembrar que muitos artistas hoje canônicos já foram considerados marginais e se ampliarmos nossos horizontes para além do cânone a coisa fica ainda mais bela e intrigante. Por outro lado, não posso deixar de concordar que, realmente, filme não precisa ser engajado, livro não precisa levantar bandeira, mas arte pode ser puro entretenimento sem ser nociva. Entretanto, é exatamente isso que 50 Tons de Cinza é: nocivo. Não porque dê mau exemplo. Nossa sociedade não precisa de mais exemplos. Sim porque reforça não só uma dinâmica abusiva que ainda é considerada natural em muitos meios como também um papel extremamente conservador e coadjuvante para a mulher. Tudo isso disfarçado de romance erótico libertador uhu somos todas muito prafrentex.

Há como falar de sexo e quebrar tabus sem ser tão danoso. Se há! Para quem estiver interessado em romance erótico com BSDM, eu gostei muito de The Boss, de Abigail Barnette (que nada mais é do que Jenny Trout, do Trout Nation! \o/). Na verdade é uma série que está no quarto livro. Ainda não li o último porque acho que a história foi ficando morna a cada volume, mas recomendo muito. Inclusive, editoras, posso traduzir para vocês em troca de um ponta pé na carreira e vários exemplares para distribuir entre as migas fãs de 50 Tons que não lêem em inglês. #ficaadica ;)
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1 comments:

Renata Lins said...

Eu quase poderia ter escrito esse texto... :)
Escrevi um "não li e não gostei", na época do burburinho com o livro (no Biscate Social Club. Chama "Meus 50 tons de..." e gerou até uma sequência de textos!). Li e me diverti demais com a Jenny Trout e sua leitura comentada.
Participei de várias conversas a respeito no FB, li a Marjorie...
E o filme me parece ainda mais bobo do que o livro, se é que isso é possível. Não aguento ver mais do que 10 minutos, de tanto que acho chato. OK, não li muito mais do que isso do livro, mas filme é mais fácil, né? Cê liga ali e... não. Chato demais.