25 Oct 2016

O machismo estruturado do meio cervejeiro candango

Do estatuto da ACervA Candanga:
Art. 2º – A Associação tem por finalidade difundir e aprimorar a zitologia e outros aspectos da cultura relacionados à cerveja, não só dentro do Distrito Federal, mas em âmbito nacional, promovendo encontros, palestras, cursos, concursos e degustações das mais variadas cervejas, muitas das quais produzidas pelos próprios associados desta associação, bem como a aquisição de cervejas nacionais e importadas, literatura, equipamentos e insumos relacionados à produção artesanal de cerveja, nacionais ou estrangeiros, possibilitando, ainda, o estreitamento dos laços de amizade entre os membros da associação e amigos desta.
Eu me envolvi com a ACervA Candanga há muito tempo, antes mesmo de me tornar associada. Não só estava presente para acompanhar festinhas, como trabalhei duro em algumas situações. Associei-me quando me dei conta que era uma bobagem esperar que eu realmente produzisse cerveja para isso. Não renovei minha associação no início do ano por questões pessoais, mas tão logo elas foram resolvidas eu fui lá e paguei novamente a anuidade. Tudo isso porque eu acreditava muito no trabalho da ACervA e queria, como mulher, ajudar a levar esse trabalho a outro patamar. Não é de hoje que eu falo sobre o machismo no mundo cervejeiro.

Antes de mais nada, reconheço e aplaudo o papel que a atual diretoria desempenhou em seu primeiro ano de mandato. Eles organizaram muita coisa, como página na internet, automação de pagamentos, além de realizarem o primeiro concurso e a festa de aniversário da associação, que já nasceu pronta para se tornar um clássico. O mais importante: eles deram conta de acompanhar a explosão da cerveja artesanal por todo país, particularmente aqui no Distrito Federal, e com isso a associação cresceu bastante. A partir daí começa o problema. Porque por terem desempenhado bem seu papel como diretoria da ACervA, parece que os diretores passaram a entender que são imunes a críticas. E quando eu falo diretores eu me refiro especialmente ao presidente da ACervA Candanga, porque os demais são extremamente omissos. O pior: diversos associados entraram nessa onda "veja o que fizeram, não devemos criticar nada" e se eu revirar mais um pouco os olhos para esse tipo de postura eu vou acabar enxergando meu cérebro.

Olha, eu não faço crítica infundada. Uma das coisas que fiz mais de uma vez nos últimos meses, inclusive, foi ler o estatuto da ACervA Candanga do começo ao fim. Qualquer pessoa que fizer isso vai saber o quanto a diretoria deixou de atuar, principalmente em seu segundo ano de mandato. A ausência de prestação de contas e a escolha deliberada de um associado amiguinho da galera para assumir status de diretor sem uma assembleia e votação apropriadas são a cereja do bolo. Como disse, em seu primeiro ano de mandato a atual diretoria teve o mérito de acompanhar o crescimento da cena cervejeira. Em seu segundo ano, ela escolheu deixar de lado a missão promotora da cultura cervejeira que a associação tem desde sua concepção para assumir a promoção de festas. O grupo de WhatsApp (oficial da ACervA Candanga, segundo fui informada), que deveria ser um espaço democrático para que os rumos da associação fossem discutidos, além de demais assuntos envolvendo a cultura cervejeira e a produção caseira, tornou-se um meio de troca de mensagens aleatórias entre uma panelinha de amigos. Ou melhor, uma panelinha de bêbados, bela definição que um amigo deu.

Não foi surpresa nenhuma para mim que as críticas que levaram à primeira grande confusão dentro da associação tenham sido relacionadas ao machismo. Não é de hoje, lembra? Essa primeira confusão nunca foi resolvida, pelo contrário, cresceu de uma maneira tão assustadora que culminou com atitudes desagradáveis e ofensivas, encabeçadas pelo nosso presidente, no dia do lançamento da cerveja ELA em Goiânia. Estávamos lá, participando de um projeto lindo e estimulante, mas tivemos que terminar o dia encarando as "piadas" que nossos companheiros de associação faziam sobre o projeto. Dizer que as coisas foram ladeira abaixo a partir daí não descreve justamente o que tem acontecido, mas talvez dê para ter ideia da dimensão do problema se eu contar que já fui agredida verbalmente pelo presidente da ACervA Candanga, senti-me ofendida pelo comportamento de outros diretores e um associado pediu pela minha expulsão repetidamente, porque afinal de contas cobrar uma postura digna da associação e de seus diretores é coisa de quem quer disseminar a discórdia. Como bem disse uma amiga: "Há de se refletir sobre os motivos pelos quais, nos últimos 2 meses, quatro representantes femininas que faziam parte desse mesmo grupo [grupo de WhatsApp da associação] tenham saído (2 por vontade própria, por não suportarem o ambiente hostil, e 2 sendo excluídas pela diretoria)".

Sim, eu fui uma das mulheres expulsas do grupo de WhatsApp. Porque depois de ver mais uma mulher sendo hostilizada e todas as pessoas agirem como se nada tivesse acontecido, eu não consegui ficar calada. Eu cansei no nível vou-falar-o-que-penso-e-foda-se. E ao contrário do associado que ofendeu a colega a ponto dela escolher sair do grupo, eu me arrependo que naquele momento minhas colocações tenham sido movidas à raiva, mas não me arrependo nem um pouco de ter apontado a disfunção daquele ambiente. Para retornar ao grupo (que não possui regras, aliás), o presidente exigiu que eu fizesse um acordo com ele. Eu expliquei que não faço acordos com quem é parte do imbróglio e decidi pedir meu desligamento da associação. Eu acreditava tanto no papel que a ACervA Candanga tem a desempenhar que tentei organizar uma chapa para as próximas eleições. Não só estava disposta a dar minha cara à tapa na próxima gestão como estava animada pela chance de fazer um pouco mais. É frustrante perceber que não há mais espaço para mim por lá, mas é uma decepção gigantesca ver que a associação escolheu retroceder. E pensar que a primeira presidente foi uma mulher...
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2 comments:

Marissa Rangel-Biddle said...

Ecreva, Clarice! Escreva! Grite, Clarice!

Clarice Concê said...

<3
Sempre!